Archive for Junho 14th, 2008
Entrevista Para o Site do Escritor Eric Novello
Mais uma entrevista minha no ar. Desta vez foi para o site do também escritor Eric Novello. Abaixo reprtoduzo apenas um trecho. O original pode ser lido na íntegra no endereço http://www.ericnovello.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=691&Itemid=36 .
1.Sérgio Pereira Couto por Sérgio Pereira Couto. Hora de se apresentar para o leitor.
Sou jornalista há quase vinte anos, mas escritor há apenas quatro. Na verdade sempre gostei de escrever, mas ainda divido meu tempo entre escrever livros de pesquisa sobre aspectos curiosos da história geral (uma velha paixão) e a atividade literária, que é uma tarefa praticamente hercúleua neste país. Mesmo assim é algo que lhe dá bons momentos e uma grande satisfação pessoal quando seu público começa a responder,, seja por emails, cartas, telefonemas, torpedos ou anotações em meu Orkut.
2.Chegar à livraria e ver só duas estantes de literatura brasileira não é incomum. Está faltando espaço físico para o escritor nacional? Música e cinema já superaram essa questão?
No meu ponto de vista falta um interesse muito grande do público em si pela produção nacional. As editoras apenas respondem aos estímulos que recebem. Uma livraria possui poucas prateleiras de livros nacionais porque é assim que o público quer. Música e cinema já atingiram um outro grau hoje, porque antigamente enfrentavam a mesma resistência do público. Num país onde ainda há poucos que possuem e cultivam o hábito da leitura, não é de se espantar que esse tipo de restrição exista, mas acredito ser apenas uma questão de tempo para que esse panorama vire. E para isso é necessário que tenhamos bons livros com qualidade de conteúdo e de produção editorial.
3.Você acha que os novos autores lêem os novos autores ou é cada um por si?
Acho que varia muito de acordo com a pessoa. Eu, por exemplo, costumo ler os novos autores e até mesmo incentivá-los. Não podemos enxergar esse segmento como um campo de batalha onde um procura devorar o outro. Para conseguirmos cultivar um bom hábito de leitura, é muito importante que possamos conquistar um espaço bom e despertar um interesse do público para que possamos ficar conhecidos. Ninguém vai publicar um primeiro livro e virar um Dan Brown ou uma J.K. Rowling logo de cara. E mesmo eles tiveram que amargar alguns fracassos e acidentes de percurso para poderem chegar onde chegaram. Os autores novatos precisam se unir para fortificar o mercado, criar uma demanda por novos romances e sagas e despertar o interesse na leitura nacional que, ao contrário do que muitos pensam, não sobrevive apenas de romances típicos ou de histórias de “mundo cão”.
4.A mp3 foi uma revolução musical. Entre impactos negativos e positivos, o certo é que muitos puderam expor seu trabalho para milhões sem depender de rádio ou gravadora. Acha que o blog cumpre papel semelhante na literatura ou só serve para minimizar frustrações?
Nem uma coisa nem outra. O blog, para mim, é uma maneira de manter um canal de contato direto com seu público, servir de vitrine para se expor e criar laços com quem queira te conhecer. A MP3 foi uma revolução importante, mas não sanou alguns problemas. Pelo contrário, despertou muitos outros, como a questão do copyright num ambiente em que não há lei que regulamente seu funcionamento. O blog serve para a pessoa se projetar e,s e o fizer com competência e cuidado, funciona de maneira espetacular. Não se pode achar que alguém será “descoberto” pelo que escreve no blog, mas acaba servindo como um “trabalho de formiguinha” para se montar uma imagem pública de quem escreve.
5.Já usei músicas em loop para escrever uma cena e bloquear eventuais sensações externas. Qual cd gostaria de ter como trilha sonora do seu trabalho? A música influência a literatura e vice-versa?
Essa é uma questão polêmica. Muita gente não gosta de escrever e ouvir música. Eu, ao contrário, escrevo sempre com trilhas sonoras de fundo. É um artificio que o ajuda a visualizar melhor a cena em que você escreve. Mas não há “a trilha sonora”, aquele CD que serve para você escrever qualquer coisa. Isso varia de acordo com a sensibilidade do escritor e da cena que você cria no momento. Eu escrevo ouvindo basicamente classic rock, com alguns momentos de blues e jazz, o que, às vezes , me faz empolgar e fazer com que uma cena fique maior do que deveria. Quanto à questão da influência, acho que sim, ambos possuem uma relação simbiótica interessante e que resulta na construção de cenários impressionantes e melhora a qualidade da sua trama.
6.Tenho percebido que em vários livros da nova safra o personagem principal é alguém que almeja escrever. Os autores estariam aproveitando a oportunidade para fazer ouvir sua voz, um emaranhado de opiniões que põe tramas e narrativas em segundo plano?
Depende do caso. Muitas vezes sim, o escritor adora colocar um “alter ego” nas histórias, seja consciente ou inconscientemente. Se é uma maneira de chamar a atenção para si, é algo que apenas o próprio escritor pode dizer. Eu acredito que sim, seja uma maneira de fazer se manifestar. No meu caso, por exemplo, isso nunca foi feito conscientemente, embora vários de meus leitores afirmem que me identificam neste ou naquele personagem. E quando perguntam se é de propósito… bem, se eu dissesse a verdade, teria que matá-lo (o leitor e o personagem)! Risos.
7.Você acha que escrever tangenciando a História da humanidade apresenta alguma dificuldade extra? É difícil lidar com um personagem que já faz parte do imaginário coletivo?
Nem um pouco. Em meu livro Renascimento (Giz Editorial) tive que recriar o personagem do Judeu Errante de uma maneira que as pessoas o entendessem mais. Na versão original o tal judeu é um condenado a andar sem parar até a volta de Cristo, enquanto que a minha versão é alguém que tem conhecimentos místicos amplos e que busca apenas redenção. Usar um arquétipo para torná-lo algo diferente é um trabalho quase impossível, porque você tem que saber o que vai mudar e se a sua mudança é algo que pode passar por plausível.
8.Analisando o mercado cinematográfico vemos um crescimento no número de adaptações de livros para a tela. Acha o processo saudável ou é sinal de falha no processo criativo?
Não, acho o processo algo bastante saudável. Primeiro porque o fato de um livro virar filme só ajuda a despertar interesse pela obra. Segundo porque as adaptações raramente são iguais, o que desperta interesse da pessoa em descobrir como é a história original. Por fim, a maneira como o filme atinge as pessoas é diferente daquela que é gerada pela leitura de um livro. Você imagina o personagem ou a cena de um jeito bem pessoal. É claro que há casos e casos de adaptações, algumas bem ruins, mas o ato de transformar um livro em filme é levar uma história que você cria para um nível maior e mais denso que nenhum escritor deve ignorar.
9.Voltando ao mundo digital. A distribuição ainda é o gargalo mais cruel ou apenas a próxima etapa? Talvez o gargalo seja arranjar uma editora… Dá para manter vendas com uma página pessoal?
Não se pode, e não se deve, culpar a editora por erros em questões administrativas. Muitos escritores simplesmente jogam o livro nas mãos da editora e esquecem do resto. Uma boa divulgação, seja ela paga pela editora ou pelo autor, é essencial para que seu nome e seu trabalho sejam conhecidos. Você, como autor, tem também obrigação de trabalhar para que se nome fique conhecido. Uma assessoria de imprensa pode conseguir bons contatos em jornais e revistas grandes, mas são os canais menores, como uma entrevista para um site especializado ou um bate-papo informal num chat, que te aproximam do seu público-alvo. E esse tipo de coisa não se obtém com a editora, que em geral acha que o retorno é pouco ou quase nenhum. O importante é cada um trabalhar o seu segmento: a editora consegue espaço em grandes veículos enquanto você briga para aparecer em sites e canais alternativos.
10.Você tem trabalhos em outras áreas culturais? Como o escritor interage com as demais artes?
Sim, como já citei, tenho quase 15 livros nas áreas de história e tecnologia. Já tive várias propostas para transformar meus livros de romance em trabalhos lidos, desenhados ou mesmo ilustrados. Já tentaram me convencer a transformar meu livro Sociedades Secretas em animação para a Internet. Acho as idéias interessantes, mas o escritor deve pensar no momento certo para se fazer isso. Por mais atrativo que o projeto seja, tornar um livro seu uma animação, por exemplo, é estragar as vendas de seus exemplares impressos e atrapalhar um trabalho editorial que está em andamento. É necessário, acima de tudo, verificar se tal adaptação ajuda ou não na sua fama de escritor. Na maioria das vezes, acredite se quiser, mais atrapalha que ajuda.
