CANTO DO ORÁCULO

Trabalhos Literários do Jornalista e Escritor Sérgio Pereira Couto

Archive for Julho 2008

Cinema de Graça – Quase Famosos

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Para os apreciadores do bom e velho rock´n´roll (ou do classic rock, como se convencionou chamar hoje em dia) fica aqui um convite especial. A Livraria Cultura realiza, nesta sexta, dia 25 de julho, uma sessão especial de cinema com o filme QUASE FAMOSOS. Na ocasião eu estarei lá fazendo uma pequena apresentação do tema enfocado e as ligações com o rock. Não perca.

Sexta-feira, 25 de julho às 19h
Tema: Cineclube Cultura – Exibição do filme |Quase famosos|

Palestrantes: Sérgio Pereira Couto
Local: Livraria Cultura Market Place Shopping Center – Av. Chucri Zaidan, 902 – São Paulo/SP

William Miller, um garoto de 15 anos, é contratado pela revista Rolling Stone para escrever sobre a tour da banda Stillwater, e acaba sendo jogado em um mundo de loucuras, com sexo, drogas e rock. O filme é uma espécie de cinebiografia do diretor Cameron Crowe, em sua adolescência.
O filme possui músicas de Simon and Garfunkel, The Who, Yes, The Beach Boys, Rod Stewart,
The Allman Brothers Band, Lynyrd Skynyrd, Led Zeppelin, Elton John, Nancy Wilson, David Bowie e Cat Stevens, entre outros.

GOOGLE BOOKS APRESENTA OS LIVROS DE SÉRGIO PEREIRA COUTO

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Para quem não sabe, o Google Books é um sistema que mostra livros que são cadastrados em geral pela editora que os lança. Uma ferramenta bastante útil, principalmente para alguém que tem que divugar seu trabalho como este que vos fala.

Assim, nada melhor do que usar essa oportunidade para mostrar ao público o tipo de trabalho que eu desenvolvo. Abaixo listo os links para que você, que ainda não conhece meus livros, possa ter uma chance de me conhecer. Acesse, leia umas páginas que estão lá escaneadas de cada título e, por fim,volte aqui para ler os contos que posto.

CLIQUE NAS CAPAS E CONHEÇA:

DOSSIÊ HITLER:

SOCIEDADES SECRETAS - MAÇONARIA:

DICIONÁRIO SECRETO DA MAÇONARIA:

A INCRÍVEL HISTÓRIA DA BÍBLIA:

OS HERÓIS DE ESPARTA:

A HISTÓRIA SECRETA DOS PIRATAS:

SEITAS SECRETAS:

MAÇONARIA PARA NÃO-INICIADOS:

SOCIEDADES SECRETAS – A VERDADE SOBRE O CÓDIGO DA VINCI:

SOCIEDADES SECRETAS – MAÇONARIA (SEGUNDA EDIÇÃO):

A HISTÓRIA SECRETA DE ROMA:

INVESTIGAÇÃO CRIMINAL (ROMANCE):

SOCIEDADES SECRETAS (SEGUNDA EDIÇÃO – ROMANCE):

DCECIFRANDO A FORTALEZA DIGITAL:

EVANGELHO DE JUDAS E OUTROS MISTÉRIOS:

CONTO – O LIVRO DA VIDA

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 Grimoire  

Peter sempre quis conhecer algo que desse a ele a oportunidade de conseguir uma janela para o passado. Por isso se lançou como colecionador de antiguidades. Para ele, mais do que preservar objetos antigos que ninguém mais queria, ter esses itens era conseguir alcançar um nível de comunhão que ele mesmo não saberia explicar. Isso porque toda vez que se deparava com um objeto antigo, ele parecia tomado por sensações estranhas ao tocá-lo. Era capaz de reconhecer quem possuíra aquele objeto, até quando ficara com ele, de onde viera, por onde passara, entre outros momentos.

Ter uma loja de antiguidades não parece ser o comércio que daria dinheiros nos dias modernos. Mas Peter sentia que essa era a resposta para que ele pudesse manter um contato permanente com a mãe, que já se fora há pelo menos dez anos, e com o pai, que definhava numa cama com esclerose múltipla. Mais do que sso, o cheiro de objetos antigos o transportava quase que instantâneamente para uma época em que ele e sua família eram felizes e não sabiam. Um apego inútil ao passado, era o que os amigos e conhecidos dele alegavam, mas mesmo assim ele insitia. Não demorou muito (foram apenas seis anos de atividades) para que ele se tornasse uma das maiores autoridades em objetos antigos dos séculos XVIII, XIX e XX. Tudo na loja de Peter era um pedaço de história, com seu próprio enredo oculto, esperando por um comprador com sensibilidade suficiente para ser adquirido.

Até um dia em que um estranho senhor de cabelos compridos e barba longa, cujo rosto parecia o do monge Rasputin, adentrou a loja. No princípio Peter acreditou que fosse algum fã de quadrinhos que quisesse adotar o visual do roteirista e escritor Alan Moore, mas logo viu que não era o caos, pois o homem estava vestido com um terno risca de giz e tinha certas características em sua indumentária que mais lembravam um mafioso. Ele entrou na loja, avaliou-a com os olhos e pareceu gostar do que vira. Apoximou-se do dono e disse:

- Olá. Sou Mephisto. Procuro Peter Logan.

- Pois não, sou eu mesmo. Em que posso servi-lo? Procura por algo em especial?

- Na verdade não sou eu quem está à proura, mas sim você. Tenho algo aqui que poderá lhe interessar muito.

O homem tirou de dentro das suas vestes um caderno que parecia ser muito antigo. Tinha capa dura e mais parecia um livro do que um caderno. Por fora lia-se a identificação “Liber Vita”. Peter examinou-o com atenção e viu que o tal caderno parecia vir de uma série de famílias antigas. Cada página estava coberta de escritas antigas em línguas que ele não fazia a mínima idéia de quais fossem.

- De onde veio? – Perguntou, com um misto de curiosidade e fascinação.

- Alemanha. – Garantiu o homem. – Foi vendido para mim por um homem que dizia ter recebido um lote que teria pertencido ao mítico doutor Fausto.

- Fausto?  O tal alquimista que vendeu sua alma ao demônio? Esse Fausto?

O homem sorriu. De fato, havia escolhido muito bem.

- Esse mesmo. O fato é que este caderno contém páginas e mais páginas sobre as vidas das pessoas que o tiveram. Diz a lenda que quem registra aqui sua vida pode ter controle completo sobre seu destino. O que escrever irá se tornar realidade. Pelo menos é o que parece estar registrado aí. Porém há uma contra-indicação: se a pessoa ausar demais do destino, ele dará um jeio de ficar “quites” a ponto de, quando a pessoa morre, as páginas que ele usou para registrar seu destino ficam novamente em branco.

A lenda era divertida, pensou Peter, mas com certeza ago que não era baseado em realidade.

- Bem, eu não costumo comprar este tipo de objeto…

- Por que não? Você tem um elo com o passado melhor que muito que eu conheço. Façamos o seguinte: fique com o caderno e experimente-o. Se daqui a três dias não se satisfazer, eu voltarei para buscá-lo. Combinado?

- O senhor está sugerindo que eu escreva neste caderno o que quero que aconteça em minha vida?

- Considere isto como um “test drive”. Se for de seu agrado, será o melhor negócio de sua vida.

A capa marrom com caracteres em vermelho pareciam chamar por sua atenção. Peter pensa muito e, por fim, decide ficar com o caderno.

- Vou experimentar, senhor Mephisto.

- Exelente, meu jovem. Até daqui a três dias.

Tão misteriosamente como entrou, o homem saiu da loja. Apesar de tudo, a curiosidade de Peter foi maior. Ele folheou algumas páginas do livro e leu algumas das histórias que lá estavam ainda registradas (ou pelo menos as que conseguia ler). Porém seu senso acreditava que era apenas invenção. E deixou o livro de lado para tocar sua rotina.

No dia seguinte ele estava a caminho de sua loja quando presenciou um acidente de carro. Aparentemente um veiculo aparecera do nada e atropelara uma mulher de 34 anos, que parecia familar. Quando soube que o nome dela era Stella Maris, ele se lembrou que era um dos nomes que lera no Liber VIta. Correu para a loja e localizou o livro. As páginas sobre Stella estavam datadas de apenas dois anos atrás e a julgar pela letra foram escritas por ela mesma. Lá ela contava que queria que fosse reconhecida como atriz e dançarina de balé. E, de fato, demorara mais ou menos esse período para que ela tivesse estourado como uma atriz revelação e dançarina premiada. Porém os últimos parágrafos eram os mais atreadores. Ela queria mais, pois nada do que conquistava com facilidade a contentava. Por fim escreveu apenas:

“Tudo o que eu quero é que esta solidão acabe logo”.

Ela era uma mulher rica e famosa, mas sem companhia, amigos ou mesmo um namorado. Escreveu que queria o fim. E foi o que teve. Peter lembrou das palavras de Mephisto e estremeceu. “Provavelmente apenas coincidência”, pensou. Fechou o livro e não lembrou mais do assunto.

Somente no fim do dia ele descobriu, por um site de Interent, que Stella havia morrido. Quando ele pegou novamente o livro, constatou que as páginas, escritas por ela, estavam novamente em branco, como se nunca tivessem sido usadas. Fascinado e ao mesmo tempo com medo, ele resolveu arriscar. Pegou uma caneta e começou a escrever nas mesmas páginas em que estavam a história de Stella:

“22 de outubro. Hoje começo a falar sobre o que quero que aconteça em minha vida. Não sou muito ambicioso, mas o que mais quero é que minha loja seja famosa o suficiente para atrair clientes e garantir meu sustento”.

Um parágrafo simples, pensou Peter. “Mentes simples, prazeres simples”, como ele sempre dizia. Fechou o livro e esperou para ver o que acontecia. Como nada aconteceu, ele acabou por se considerar tolo por acreditar naquilo e fechou o livro. “Vai ver que a escrita que havia antes sumiu por ser do tipo delével”, pensou. Fechou a loja e foi para casa.

No dia seguinte, a primeira surpresa. Seu escritor predileto, Alan Ronay, procurava uma loja de antiguidades para ser o cenário de seu novo romance de terror. Ronay ficou fascinado com os objetos que a loja de Peter possuía e quis relacionar tudo para que ela aparecesse em seu livro. Passou a tarde toda por lá com sua equipe, que catalogou peça a peça. O escritor assegurou a Peter que, dessa forma, sua loja viraria um sucesso instantâneo e que não faltariam fregueses. Ele cumpriu a promessa no fim daquele mesmo dia, quando publicou um capítulo de preview de seu novo romance na Internet. Naquela noite o email da loja recebeu seu recorde de mensagens, todos de fãs de Alan Ronay querendo conhecer mais sobre o cenário de seu novo romance. Uma publicidade excelente para o escritor e para o antiquário.

No segundo dia a loja recebeu uma multidão de clientes, todos querendo comprar algum objeto que sabiam estar relacionado no novo romance de Ronay. Peter faturou como nunca e, assim, o que ele escrevera realmente acontecera. Ele nunca se sentira tão contente. Assim, abriu de novo o livro e acrescentou um novo parágrafo na folha em que começara a escrever:

“23 de outubro. Gostaria muito que minha loja fosse reparada por um estúdio de cinema que se interessasse em fazer um filme, ou pelo menos uma cena, passada aqui. Assim, a fama da loja cresceria e meu nome ficaria famoso a ponto de transformar meu negócio numa franquia”.

É claro que, como o leitor pode imaginar, mais uma vez o desejo de Peter deu certo e ele estava com ninguém menos que a New Line Cinema querendo alugar sua loja para rodar um filme. Só a atenção que a escolha trouxe foi o suficiente para seu faturamento aumentar a ponto dele transformar sua loja na matriz de uma pequena rede de franquias. Já havia uma fila de pessoas interessadas em ter a marca da loja em suas cidades. O dinheiro nunca havia jorrado tanto na caixa registradora como agora.

Quando Mephisto voltou para buscar o livro, viu que o “test drive” havia dado certo. Peter logo quis comprar o livro do homem, mas este, desconfiado que iria provocar uma tragédia na vida do antiquário, disse que havia mudado de idéia e que simplesmente queria o livro de volta. Peter percebeu que poderia perder a chance de sua vida para mudar sua vida e não quis deixar que o livro saísse da loja. O homem, porém, insistiu e, impotente, Peter devolveu-lhe o livro. Porém, assim que “Rasputin” virou as costas, Peter pegou um atiçador de carvões usado em lareiras e atacou o dono do livro, esmagando-lhe a cabeçacom o objeto que ele mesmo havia adquirido como um bem precioso antes de conhecer o Liber Vita. Peter teve que esconder o corpo num baú antigo do século XVIII que havia adquirido do espólio de um russo recém-falecido.

Crente de que ninguém iria descobrir seu crime (já que ele escrevera no livro isto para garantir), Peter continou anotando nas páginas amareladas tudo o que ele queria para sua própria vida. Assim, ele ganhou muito dinheiro, comprou propriedades, carros, barcos, gastou milhares de dólares com mulheres de todos os tipos e viveu por pelo menos quatro meses uma vida que poucos tiveram a oportunidade de viver.

Porém o aviso do homem assassinado ainda ecoava em sua mente. Ele tentou anotar que “o livro jamais deveria se separar dele”, mas, por motivos que ignorava, a frase sumia toda vez que ele a terminava de escrever. Ele começou a achar que, de uma maneira ou de outra, a magia que permeava o livro estava em ação. E que, se não pudesse evitar de alguma forma, ela voltaria para “ficar quietes” com ele.

A vingança veio de uma forma terrível. Seu pai, no auge de uma crise de esclerose, pulu do sétimo andar onde moravam e morreu delirando sobre “o pacto” do filho. Apenas alguns dias após o enterro, Peter começou a ver a figura de Mephisto por todos os lados. Convencido de que estava delirando, ele tentou novamente escrever para que aquilotudo parasse de acontecer, mas via que a tinta das canetas não aderia às páginas. Com medo de que talvez tivesse exagerado, ele ainda tentou trocar de caneta, mas mesmo as mais porosas se recusavam a diexar suas tintas naquelas páginas.

Um dia Peter viu que não podia mais escrever no LIber Vita. Nem caneta, nem lápis, absolutamente nada mais escrevia nas páginas. Com medo do que aquilo poderia significar, tentou se livrar do livro, mas teve medo que alguém o encontrasse, descobrisse seu segredo e o passasse para trás. Trancou-o num cofre, mas constatou horrorizado que o móvel havia sido arrombado de dentro para fora. O livro nao queria mais ficar por lá com ele.

Seis meses exatos depois que Mephisto apareceu por lá pela primeira vez, o homem entrou de novo pela mesma porta. Peter, apavorado, quis fazer um pacto para que não fosse punido. Porém Mephisto, que possuía um aspecto incrivelmente saudável para alguém que fora morto a pancadas, sorriu e disse:

- Pacto é pacto, senhor Logan. Se duvida, pergunte ao livro. Ele, com certeza, não parece estar contente comsuas atitudes.

Intrigado, Peter abriu o livro. Imediatamente uma luz saiu de seu interior e o envolveu. Seu grito de dor lacinante preencheu o ar enquanto sua forma mortal era desintegrada e reaparecia como uma ilustração nas páginas em branco do livro. Mephisto aproximou-se dele e folheou as páginas até achar Peter, que se tornara uma figura num texto que falava sobre os sete pecados capitais. Ele era, claro, a ganância.

- Hà muito niveis no Livro da Vida, senhor Logan. Da mesma forma que o destino dá, ele tira. Agora o senhor terá uma eternidade para entender seus errosem seu inferno particular.

Mephisto fechou o livro e saiu com ele embaixo do braço. NInguem nunca mais ouviu falar de Peter Logan. A loja, que ficou conhecida por ser mal-assombrada, nunca mais foi ocupada. Dizem que, durante a noite, é possível, nas horas mais caladas, ouvir o gemido de Peter, em algum lugar, se arrependendo de ter abusado do destino.

COPYRIGHT 2008 POR SÉRGIO PEREIRA COUTO. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. REPRODUÇÃO AUTORIZADA SOMENTE COM CITAÇÃO DA ORIGEM.

Escrito por spereirac

Julho 14, 2008 em 3:08 am

Nova Comunidade no Orkut Dedicada ao Classic Rock e Suas Lendas

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O livro SEGREDOS E LENDAS DO ROCK está chamando a atenção das pessoas a ponto de enviarem muitos emails pedindo um lugar onde as histórias do livro pudessem ser compatilhadas.

Por isso decidi atender aos pedidos das pessoas. Agora a obra possui sua própria comunidade no orkut. Para acessá-la clique em http://www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=60603809 e se inscreva. Além das bandas enfocadas no livro, teremos também histórias inéditas de outros grupos, como Deep Purple, Queen, Whitesnake, Pearl Jam, Soundgarden, Tears for Fears e Fleetwood Mac, entre outros que ficaram de fora desta vez por questão de espaço, mas que poderão aparecer num eventual segundo volume (ou mesmo numa segunda edição).

Então não perca tempo! Acesse o comunidade e comece a trocar idéias com outros fãs do bom e velho rock. E nãos e esqueça: dia 13 de julho é o Dia Mundial do Rock. ROCK ON!!!

Conto – Em Linha Reta

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Por Sérgio Pereira Couto

A partir de agora vou publicar aqui alguns contos que resolvi colocar para que os frequentadores deste blog possam ter uma idéia mais detalhada de como é a minha produção literária. Começo com um texto antigo, uma das primeiras tentativas de produzir um conto que fosse, ao mesmo tempo, terror e suspense. Boa leitura.

Minhoca

O que Paulo mais odiava era a rotina. Não que isso fosse algo ruim, pois todos, de uma formaou de outra, odeiam rotina. Mas, no caso dele, era um verdadeiro exagero. Sem namorada, emprego ou amigos, ele tinha uma vida atribulada quando passava dia após dia cuidando da mãe doente e do pai depressivo.

E todos os dias passava pela mesma coisa: pegava o metrô em uma linha,corria tda a extensão atéaoutra, saía da estação, passava pelo posto de saúde,apanhava os remédios corretos, entrava de novo no metrô e esperava até chegar em casa, para então cuidar de seus pais. Paulo não entendia o propósito de uma vida sem grandes atrativos como a que tinha e pensava que, com certeza, isso tinha que ter alguma coisa a ver com karma. Ele simplesmente desejava,com todas as suas forças, que um dia aquela rotina acabasse e que ele pudesse viver outra vida.

E mais uma vez o velho ditado do “cuidado com o que você deseja” se realizou. Mas de uma maneira totalmente inesperada. Um dia, depois de passar uma noite inteira em claro cuidando de sua mãe, ele não dormiu e entrou no metrô para sua viagem habitual até o posto de saúde. O vai e vem das pessoas e o trem cheio tinham um efeito calmante nele que nem desconfiava. Quando as estaçõescomeçaram a passar diante de seus olhos, numa velocidade constante, os olhos começaram a ficar pesados e a sensação de que havia areia nos cantos era irresistível. Paulo começou a ficar naquele estado entre o adormecido e o acordado. E o transporte seguiu seu rumo em linha reta.

Eledeve ter dormido por pelo menos alguns minutos, pois o vagão estava cheio quando ele fechou seus olhos. E agora, o que era estranho, estava completamente vazio. Paulo esfregou os olhos e tentou verificar paa qual estação se encaminhava. Foi quando viu que o trem seguia sua linha reta, mas que parecia não chegar a lugar algum. Apenas observou a sucessão de pilastras que não parava de passar, sem nenhum tipo de identificação sobre onde estava.

“Onde estão as pessoas?”, pensou consigo mesmo,enquanto tentava entender o que teria acotecido com elas. De repente o trem começou a diminuir a velocidade,sinal de que,finalmente, iria parar. “Já não era sem tempo”, pensou, enquanto se dirigia à porta. Porém, quando o veículo finalmente ficou imóvel e a porta automática se abriu, Paulo se viu numa estação que nunca vira antes. Em vez da arquitetura tradicional de concreto e plástico, tão característica dos metrôs, viu o que parecia ser uma miríade de pedaços de vidro fundidos, que davam à estação um aspecto de um caleidoscópio. Ele seguiu o que pareceu ser o caminho da saída por alguns instantes, levado pela luz exterior que mudava de cores conforme passava pelos vidros.

Quando ele conseguiu sair da estação, percebeu que não havia bem uam cidade do lado de fora. O chão, liso como vidro, era planocomo uma lâmina de uma faca. Não havia um ser vivo por perto e a única coisa que fazia com que parecesse er vida por perto eram enormes massas de algo verde que estavam ao longe. Paulo tentou alcançar uma delas. Foi quando a massa começou a se mexer e contorcer. Assustado, ele recuou alguns passos e pode ver uma cabeça em forma de ponta de flecha se mover. Havia o que pareciam ser dois olhos negros sem pálpebras que o encararam. Paulo pensou em gritar, mas não havia mais ninguém por perto. Num lampejo, ele percebeu que estava frente a frente com uma enorme planária, que resolveu segui-lo enquanto ele disparava de volta para a estação.

Assustado, ele passou pelo bloqueio e nem olhou ara trás. Quando voltou à plataforma, percebeu que o trem continuava lá parado,como se o esperasse. Quando ele entrou, ouviu a campainha, que indicava a partida. As portas se fecharam e então a linha reta continuou. O suor escorria de seu rosto e as mãos tremiam sem parar. “Meu Deus, o que foi aquilo?”, perguntava a si mesmo, mas resposta que ébom, nada.

A sucessão de pilastras no túnel continuou por mais um tempo até que a velocidade novamente começou a diminuir. Paulo respirou aliviado, achando que estava seguro desta vez. Quando o trem parou e as portas se abriram, ele resolveu primeiro espiar para fora. Viu uma estação tão deserta quanto a anterior, mas desta vez toda em tom marrom, com manchas amarelas, no que parecia ser algo vivo que lembrava uma lâmpada de lava, comum nos anos 1960. No início, pensou que pudesse ser outra planária, mas depois descartou a idéia, pois sabia que planárias não eram daquelacor. Andou mais uns passos e viu que o tom marrom começava a asumir um tom vermelho, quente, sufcante. Aquilo parecia mesmo o interior do inferno.

Não havia novamente seres humanos, nem mesmo indicação de uma luz exterior. O calor aumentava gradualmente e o suro começou a invadir seu corpo. Quando finalmente ele encontrou a saída da estação, viu horrorizado que estava no que parecia ser o interior de umvulcão cheio de lava, prestes a entrar em erupção. Havia um líquido que see spalhava em todas as direções e que se assemelhava a uma espécie de geleca mutante. Tudo que ela tocava se tornava parte dela. Era uma criatura de assimilação, um ser que engolia tudo que encontrava pelo caminho. E quando viu Paulo, sentiu o calor de seu corpo e disparou em sua direção.

Novamente em pânico, ele correu para a estação deserta, gritando e suando. A criatura o seguiu, como um rio vermelho. Novamente ele passou pela plataforma e viu que o trem continuava lá. Ele entrou bem na hora que a campainha anunciou o fechamento das portas. Assim que  trem começou a andar a geleca mutante invadiu a pista do trem e começou a caçá-lo. Mas a velocidade foi aumentando gradativamente e a viagem em linha reta recomeçou.

“Devo estar sonhando, é isso”, pensou Paulo,enquanto desabava de novo num banco. “Meu Deus, o que foi que aconteceu comigo?”. Com certeza, nunca vira nada semelhante àquelas estações e não via a hora de sair daquela loucura em que havia estado. Talvez aquilo tudo fosse um sonho incômodo que mostrasse o quanto seu subconsciente estava perturbado. Ou talvez fosse uma maneira dele se autopunir por não ser um filho bom. Afinal, ele sabia que, no fundo, só queria que os pais sumissem para que ele pudesse ter uma vida normal. “Será que isso é um aviso do além de que,se eu não me arrepender, vou para o inferno?”, pensou sem muita convicção, já que não era bem religioso.

Quando o trem diminuiu a velocidade, ele esperou que, desta vez, chegasse a um lugar conhecido. Foi quando viu que a nova estação era toda branca. Uma brancura que chegava a doer os olhos. “Que lindo”, pensou. “Será que cheguei ao Paraíso?”. Quando as portas se abriram, ele chegou a pensar que poderia ver anjos voando e lhe mostrando que era, no fundo, um bem-aventurado e que havia chegado para alcançar sua recompensa. Talvez as estações anteriores fossem o inferno e o purgatório.

Ele saiu do trem e andou por aquela brancura toda. Observou para ver se distinguia algo mais, mas era tudo branco. Branco e morto. Novamente começou a sentir medo. O branco, por mais que seja uma cor suave, como tudo que écolocado em exagero, podia esconder algo terrível. Porém, a única coisa que encontrou na frente foi um pequeno cachorrinho branco. Não era de nenhuma raça conhecida, e Paulo, um apreciador de cães, parou para afagá-lo. De repente o cão se tornou uma enorme e viscosa bola de substância branca, que começou a envolver sua mão. Ele começou a gritar e a sacudir o membro, mas quanto mais o fazia, mais a coisa avançava e dominava. Um frio tremendo começou a passar pelo braço como uma corrente elétrica. Ele correu de volta para o trem, mas desta vez não tinha como se livrar daquela coisa em sua mão. Bateu com força contra a entrada da estação, mas nada parecia poder tirar aquilo. Até que ouviu a campainha.

Paulo correu para entrar no trem e ficou coma mão coma coisa branca do lado de fora. Quando as portas se fecharam o efeito que o dominou foi forte. As portas se tornaram duas lâminas que amputaram sua mão. Assim, lá ficou um pedaço de seu corpo, tomado para sempre por aquele branco assassino. E a viagem em linha reta recomeçou.

Paulo estava traumatizado com a perda da mão e desabou no banco do trem. Apagou por completo. Nâo precebeu que sua mão havia se regenerado. Ele se agarrou ao banco do trem e o abraçou como se fosse a salvação de sua vida. Em seu sono não pode perceber que nunca esteve num trem, mas que na verdade era um verme que se movia dentro de um ser gigante. O que parecia um trem era, na verdade, uma minhoca que só tinha uma preocupaçãona vida: cavar seus túneis sem parar na terra, correndo numa direção que ninguém podia supeitar quando fosse parar…

Copyright 2008 por Sérgio Pereira Couto. Reprodução permitida SOMENTE com citação da origem.

Escrito por spereirac

Julho 8, 2008 em 2:42 am

Publicado em Contos

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