Conto – Em Linha Reta
Publicado por spereirac em Julho 8, 2008
Por Sérgio Pereira Couto
A partir de agora vou publicar aqui alguns contos que resolvi colocar para que os frequentadores deste blog possam ter uma idéia mais detalhada de como é a minha produção literária. Começo com um texto antigo, uma das primeiras tentativas de produzir um conto que fosse, ao mesmo tempo, terror e suspense. Boa leitura.
O que Paulo mais odiava era a rotina. Não que isso fosse algo ruim, pois todos, de uma formaou de outra, odeiam rotina. Mas, no caso dele, era um verdadeiro exagero. Sem namorada, emprego ou amigos, ele tinha uma vida atribulada quando passava dia após dia cuidando da mãe doente e do pai depressivo.
E todos os dias passava pela mesma coisa: pegava o metrô em uma linha,corria tda a extensão atéaoutra, saía da estação, passava pelo posto de saúde,apanhava os remédios corretos, entrava de novo no metrô e esperava até chegar em casa, para então cuidar de seus pais. Paulo não entendia o propósito de uma vida sem grandes atrativos como a que tinha e pensava que, com certeza, isso tinha que ter alguma coisa a ver com karma. Ele simplesmente desejava,com todas as suas forças, que um dia aquela rotina acabasse e que ele pudesse viver outra vida.
E mais uma vez o velho ditado do “cuidado com o que você deseja” se realizou. Mas de uma maneira totalmente inesperada. Um dia, depois de passar uma noite inteira em claro cuidando de sua mãe, ele não dormiu e entrou no metrô para sua viagem habitual até o posto de saúde. O vai e vem das pessoas e o trem cheio tinham um efeito calmante nele que nem desconfiava. Quando as estaçõescomeçaram a passar diante de seus olhos, numa velocidade constante, os olhos começaram a ficar pesados e a sensação de que havia areia nos cantos era irresistível. Paulo começou a ficar naquele estado entre o adormecido e o acordado. E o transporte seguiu seu rumo em linha reta.
Eledeve ter dormido por pelo menos alguns minutos, pois o vagão estava cheio quando ele fechou seus olhos. E agora, o que era estranho, estava completamente vazio. Paulo esfregou os olhos e tentou verificar paa qual estação se encaminhava. Foi quando viu que o trem seguia sua linha reta, mas que parecia não chegar a lugar algum. Apenas observou a sucessão de pilastras que não parava de passar, sem nenhum tipo de identificação sobre onde estava.
“Onde estão as pessoas?”, pensou consigo mesmo,enquanto tentava entender o que teria acotecido com elas. De repente o trem começou a diminuir a velocidade,sinal de que,finalmente, iria parar. “Já não era sem tempo”, pensou, enquanto se dirigia à porta. Porém, quando o veículo finalmente ficou imóvel e a porta automática se abriu, Paulo se viu numa estação que nunca vira antes. Em vez da arquitetura tradicional de concreto e plástico, tão característica dos metrôs, viu o que parecia ser uma miríade de pedaços de vidro fundidos, que davam à estação um aspecto de um caleidoscópio. Ele seguiu o que pareceu ser o caminho da saída por alguns instantes, levado pela luz exterior que mudava de cores conforme passava pelos vidros.
Quando ele conseguiu sair da estação, percebeu que não havia bem uam cidade do lado de fora. O chão, liso como vidro, era planocomo uma lâmina de uma faca. Não havia um ser vivo por perto e a única coisa que fazia com que parecesse er vida por perto eram enormes massas de algo verde que estavam ao longe. Paulo tentou alcançar uma delas. Foi quando a massa começou a se mexer e contorcer. Assustado, ele recuou alguns passos e pode ver uma cabeça em forma de ponta de flecha se mover. Havia o que pareciam ser dois olhos negros sem pálpebras que o encararam. Paulo pensou em gritar, mas não havia mais ninguém por perto. Num lampejo, ele percebeu que estava frente a frente com uma enorme planária, que resolveu segui-lo enquanto ele disparava de volta para a estação.
Assustado, ele passou pelo bloqueio e nem olhou ara trás. Quando voltou à plataforma, percebeu que o trem continuava lá parado,como se o esperasse. Quando ele entrou, ouviu a campainha, que indicava a partida. As portas se fecharam e então a linha reta continuou. O suor escorria de seu rosto e as mãos tremiam sem parar. “Meu Deus, o que foi aquilo?”, perguntava a si mesmo, mas resposta que ébom, nada.
A sucessão de pilastras no túnel continuou por mais um tempo até que a velocidade novamente começou a diminuir. Paulo respirou aliviado, achando que estava seguro desta vez. Quando o trem parou e as portas se abriram, ele resolveu primeiro espiar para fora. Viu uma estação tão deserta quanto a anterior, mas desta vez toda em tom marrom, com manchas amarelas, no que parecia ser algo vivo que lembrava uma lâmpada de lava, comum nos anos 1960. No início, pensou que pudesse ser outra planária, mas depois descartou a idéia, pois sabia que planárias não eram daquelacor. Andou mais uns passos e viu que o tom marrom começava a asumir um tom vermelho, quente, sufcante. Aquilo parecia mesmo o interior do inferno.
Não havia novamente seres humanos, nem mesmo indicação de uma luz exterior. O calor aumentava gradualmente e o suro começou a invadir seu corpo. Quando finalmente ele encontrou a saída da estação, viu horrorizado que estava no que parecia ser o interior de umvulcão cheio de lava, prestes a entrar em erupção. Havia um líquido que see spalhava em todas as direções e que se assemelhava a uma espécie de geleca mutante. Tudo que ela tocava se tornava parte dela. Era uma criatura de assimilação, um ser que engolia tudo que encontrava pelo caminho. E quando viu Paulo, sentiu o calor de seu corpo e disparou em sua direção.
Novamente em pânico, ele correu para a estação deserta, gritando e suando. A criatura o seguiu, como um rio vermelho. Novamente ele passou pela plataforma e viu que o trem continuava lá. Ele entrou bem na hora que a campainha anunciou o fechamento das portas. Assim que trem começou a andar a geleca mutante invadiu a pista do trem e começou a caçá-lo. Mas a velocidade foi aumentando gradativamente e a viagem em linha reta recomeçou.
“Devo estar sonhando, é isso”, pensou Paulo,enquanto desabava de novo num banco. “Meu Deus, o que foi que aconteceu comigo?”. Com certeza, nunca vira nada semelhante àquelas estações e não via a hora de sair daquela loucura em que havia estado. Talvez aquilo tudo fosse um sonho incômodo que mostrasse o quanto seu subconsciente estava perturbado. Ou talvez fosse uma maneira dele se autopunir por não ser um filho bom. Afinal, ele sabia que, no fundo, só queria que os pais sumissem para que ele pudesse ter uma vida normal. “Será que isso é um aviso do além de que,se eu não me arrepender, vou para o inferno?”, pensou sem muita convicção, já que não era bem religioso.
Quando o trem diminuiu a velocidade, ele esperou que, desta vez, chegasse a um lugar conhecido. Foi quando viu que a nova estação era toda branca. Uma brancura que chegava a doer os olhos. “Que lindo”, pensou. “Será que cheguei ao Paraíso?”. Quando as portas se abriram, ele chegou a pensar que poderia ver anjos voando e lhe mostrando que era, no fundo, um bem-aventurado e que havia chegado para alcançar sua recompensa. Talvez as estações anteriores fossem o inferno e o purgatório.
Ele saiu do trem e andou por aquela brancura toda. Observou para ver se distinguia algo mais, mas era tudo branco. Branco e morto. Novamente começou a sentir medo. O branco, por mais que seja uma cor suave, como tudo que écolocado em exagero, podia esconder algo terrível. Porém, a única coisa que encontrou na frente foi um pequeno cachorrinho branco. Não era de nenhuma raça conhecida, e Paulo, um apreciador de cães, parou para afagá-lo. De repente o cão se tornou uma enorme e viscosa bola de substância branca, que começou a envolver sua mão. Ele começou a gritar e a sacudir o membro, mas quanto mais o fazia, mais a coisa avançava e dominava. Um frio tremendo começou a passar pelo braço como uma corrente elétrica. Ele correu de volta para o trem, mas desta vez não tinha como se livrar daquela coisa em sua mão. Bateu com força contra a entrada da estação, mas nada parecia poder tirar aquilo. Até que ouviu a campainha.
Paulo correu para entrar no trem e ficou coma mão coma coisa branca do lado de fora. Quando as portas se fecharam o efeito que o dominou foi forte. As portas se tornaram duas lâminas que amputaram sua mão. Assim, lá ficou um pedaço de seu corpo, tomado para sempre por aquele branco assassino. E a viagem em linha reta recomeçou.
Paulo estava traumatizado com a perda da mão e desabou no banco do trem. Apagou por completo. Nâo precebeu que sua mão havia se regenerado. Ele se agarrou ao banco do trem e o abraçou como se fosse a salvação de sua vida. Em seu sono não pode perceber que nunca esteve num trem, mas que na verdade era um verme que se movia dentro de um ser gigante. O que parecia um trem era, na verdade, uma minhoca que só tinha uma preocupaçãona vida: cavar seus túneis sem parar na terra, correndo numa direção que ninguém podia supeitar quando fosse parar…
Copyright 2008 por Sérgio Pereira Couto. Reprodução permitida SOMENTE com citação da origem.

Antonio Hermida disse
Maravilhoso!