CONTO – O LIVRO DA VIDA
Publicado por spereirac em Julho 14, 2008
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Peter sempre quis conhecer algo que desse a ele a oportunidade de conseguir uma janela para o passado. Por isso se lançou como colecionador de antiguidades. Para ele, mais do que preservar objetos antigos que ninguém mais queria, ter esses itens era conseguir alcançar um nível de comunhão que ele mesmo não saberia explicar. Isso porque toda vez que se deparava com um objeto antigo, ele parecia tomado por sensações estranhas ao tocá-lo. Era capaz de reconhecer quem possuíra aquele objeto, até quando ficara com ele, de onde viera, por onde passara, entre outros momentos.
Ter uma loja de antiguidades não parece ser o comércio que daria dinheiros nos dias modernos. Mas Peter sentia que essa era a resposta para que ele pudesse manter um contato permanente com a mãe, que já se fora há pelo menos dez anos, e com o pai, que definhava numa cama com esclerose múltipla. Mais do que sso, o cheiro de objetos antigos o transportava quase que instantâneamente para uma época em que ele e sua família eram felizes e não sabiam. Um apego inútil ao passado, era o que os amigos e conhecidos dele alegavam, mas mesmo assim ele insitia. Não demorou muito (foram apenas seis anos de atividades) para que ele se tornasse uma das maiores autoridades em objetos antigos dos séculos XVIII, XIX e XX. Tudo na loja de Peter era um pedaço de história, com seu próprio enredo oculto, esperando por um comprador com sensibilidade suficiente para ser adquirido.
Até um dia em que um estranho senhor de cabelos compridos e barba longa, cujo rosto parecia o do monge Rasputin, adentrou a loja. No princípio Peter acreditou que fosse algum fã de quadrinhos que quisesse adotar o visual do roteirista e escritor Alan Moore, mas logo viu que não era o caos, pois o homem estava vestido com um terno risca de giz e tinha certas características em sua indumentária que mais lembravam um mafioso. Ele entrou na loja, avaliou-a com os olhos e pareceu gostar do que vira. Apoximou-se do dono e disse:
- Olá. Sou Mephisto. Procuro Peter Logan.
- Pois não, sou eu mesmo. Em que posso servi-lo? Procura por algo em especial?
- Na verdade não sou eu quem está à proura, mas sim você. Tenho algo aqui que poderá lhe interessar muito.
O homem tirou de dentro das suas vestes um caderno que parecia ser muito antigo. Tinha capa dura e mais parecia um livro do que um caderno. Por fora lia-se a identificação “Liber Vita”. Peter examinou-o com atenção e viu que o tal caderno parecia vir de uma série de famílias antigas. Cada página estava coberta de escritas antigas em línguas que ele não fazia a mínima idéia de quais fossem.
- De onde veio? – Perguntou, com um misto de curiosidade e fascinação.
- Alemanha. – Garantiu o homem. – Foi vendido para mim por um homem que dizia ter recebido um lote que teria pertencido ao mítico doutor Fausto.
- Fausto? O tal alquimista que vendeu sua alma ao demônio? Esse Fausto?
O homem sorriu. De fato, havia escolhido muito bem.
- Esse mesmo. O fato é que este caderno contém páginas e mais páginas sobre as vidas das pessoas que o tiveram. Diz a lenda que quem registra aqui sua vida pode ter controle completo sobre seu destino. O que escrever irá se tornar realidade. Pelo menos é o que parece estar registrado aí. Porém há uma contra-indicação: se a pessoa ausar demais do destino, ele dará um jeio de ficar “quites” a ponto de, quando a pessoa morre, as páginas que ele usou para registrar seu destino ficam novamente em branco.
A lenda era divertida, pensou Peter, mas com certeza ago que não era baseado em realidade.
- Bem, eu não costumo comprar este tipo de objeto…
- Por que não? Você tem um elo com o passado melhor que muito que eu conheço. Façamos o seguinte: fique com o caderno e experimente-o. Se daqui a três dias não se satisfazer, eu voltarei para buscá-lo. Combinado?
- O senhor está sugerindo que eu escreva neste caderno o que quero que aconteça em minha vida?
- Considere isto como um “test drive”. Se for de seu agrado, será o melhor negócio de sua vida.
A capa marrom com caracteres em vermelho pareciam chamar por sua atenção. Peter pensa muito e, por fim, decide ficar com o caderno.
- Vou experimentar, senhor Mephisto.
- Exelente, meu jovem. Até daqui a três dias.
Tão misteriosamente como entrou, o homem saiu da loja. Apesar de tudo, a curiosidade de Peter foi maior. Ele folheou algumas páginas do livro e leu algumas das histórias que lá estavam ainda registradas (ou pelo menos as que conseguia ler). Porém seu senso acreditava que era apenas invenção. E deixou o livro de lado para tocar sua rotina.
No dia seguinte ele estava a caminho de sua loja quando presenciou um acidente de carro. Aparentemente um veiculo aparecera do nada e atropelara uma mulher de 34 anos, que parecia familar. Quando soube que o nome dela era Stella Maris, ele se lembrou que era um dos nomes que lera no Liber VIta. Correu para a loja e localizou o livro. As páginas sobre Stella estavam datadas de apenas dois anos atrás e a julgar pela letra foram escritas por ela mesma. Lá ela contava que queria que fosse reconhecida como atriz e dançarina de balé. E, de fato, demorara mais ou menos esse período para que ela tivesse estourado como uma atriz revelação e dançarina premiada. Porém os últimos parágrafos eram os mais atreadores. Ela queria mais, pois nada do que conquistava com facilidade a contentava. Por fim escreveu apenas:
“Tudo o que eu quero é que esta solidão acabe logo”.
Ela era uma mulher rica e famosa, mas sem companhia, amigos ou mesmo um namorado. Escreveu que queria o fim. E foi o que teve. Peter lembrou das palavras de Mephisto e estremeceu. “Provavelmente apenas coincidência”, pensou. Fechou o livro e não lembrou mais do assunto.
Somente no fim do dia ele descobriu, por um site de Interent, que Stella havia morrido. Quando ele pegou novamente o livro, constatou que as páginas, escritas por ela, estavam novamente em branco, como se nunca tivessem sido usadas. Fascinado e ao mesmo tempo com medo, ele resolveu arriscar. Pegou uma caneta e começou a escrever nas mesmas páginas em que estavam a história de Stella:
“22 de outubro. Hoje começo a falar sobre o que quero que aconteça em minha vida. Não sou muito ambicioso, mas o que mais quero é que minha loja seja famosa o suficiente para atrair clientes e garantir meu sustento”.
Um parágrafo simples, pensou Peter. “Mentes simples, prazeres simples”, como ele sempre dizia. Fechou o livro e esperou para ver o que acontecia. Como nada aconteceu, ele acabou por se considerar tolo por acreditar naquilo e fechou o livro. “Vai ver que a escrita que havia antes sumiu por ser do tipo delével”, pensou. Fechou a loja e foi para casa.
No dia seguinte, a primeira surpresa. Seu escritor predileto, Alan Ronay, procurava uma loja de antiguidades para ser o cenário de seu novo romance de terror. Ronay ficou fascinado com os objetos que a loja de Peter possuía e quis relacionar tudo para que ela aparecesse em seu livro. Passou a tarde toda por lá com sua equipe, que catalogou peça a peça. O escritor assegurou a Peter que, dessa forma, sua loja viraria um sucesso instantâneo e que não faltariam fregueses. Ele cumpriu a promessa no fim daquele mesmo dia, quando publicou um capítulo de preview de seu novo romance na Internet. Naquela noite o email da loja recebeu seu recorde de mensagens, todos de fãs de Alan Ronay querendo conhecer mais sobre o cenário de seu novo romance. Uma publicidade excelente para o escritor e para o antiquário.
No segundo dia a loja recebeu uma multidão de clientes, todos querendo comprar algum objeto que sabiam estar relacionado no novo romance de Ronay. Peter faturou como nunca e, assim, o que ele escrevera realmente acontecera. Ele nunca se sentira tão contente. Assim, abriu de novo o livro e acrescentou um novo parágrafo na folha em que começara a escrever:
“23 de outubro. Gostaria muito que minha loja fosse reparada por um estúdio de cinema que se interessasse em fazer um filme, ou pelo menos uma cena, passada aqui. Assim, a fama da loja cresceria e meu nome ficaria famoso a ponto de transformar meu negócio numa franquia”.
É claro que, como o leitor pode imaginar, mais uma vez o desejo de Peter deu certo e ele estava com ninguém menos que a New Line Cinema querendo alugar sua loja para rodar um filme. Só a atenção que a escolha trouxe foi o suficiente para seu faturamento aumentar a ponto dele transformar sua loja na matriz de uma pequena rede de franquias. Já havia uma fila de pessoas interessadas em ter a marca da loja em suas cidades. O dinheiro nunca havia jorrado tanto na caixa registradora como agora.
Quando Mephisto voltou para buscar o livro, viu que o “test drive” havia dado certo. Peter logo quis comprar o livro do homem, mas este, desconfiado que iria provocar uma tragédia na vida do antiquário, disse que havia mudado de idéia e que simplesmente queria o livro de volta. Peter percebeu que poderia perder a chance de sua vida para mudar sua vida e não quis deixar que o livro saísse da loja. O homem, porém, insistiu e, impotente, Peter devolveu-lhe o livro. Porém, assim que “Rasputin” virou as costas, Peter pegou um atiçador de carvões usado em lareiras e atacou o dono do livro, esmagando-lhe a cabeçacom o objeto que ele mesmo havia adquirido como um bem precioso antes de conhecer o Liber Vita. Peter teve que esconder o corpo num baú antigo do século XVIII que havia adquirido do espólio de um russo recém-falecido.
Crente de que ninguém iria descobrir seu crime (já que ele escrevera no livro isto para garantir), Peter continou anotando nas páginas amareladas tudo o que ele queria para sua própria vida. Assim, ele ganhou muito dinheiro, comprou propriedades, carros, barcos, gastou milhares de dólares com mulheres de todos os tipos e viveu por pelo menos quatro meses uma vida que poucos tiveram a oportunidade de viver.
Porém o aviso do homem assassinado ainda ecoava em sua mente. Ele tentou anotar que “o livro jamais deveria se separar dele”, mas, por motivos que ignorava, a frase sumia toda vez que ele a terminava de escrever. Ele começou a achar que, de uma maneira ou de outra, a magia que permeava o livro estava em ação. E que, se não pudesse evitar de alguma forma, ela voltaria para “ficar quietes” com ele.
A vingança veio de uma forma terrível. Seu pai, no auge de uma crise de esclerose, pulu do sétimo andar onde moravam e morreu delirando sobre “o pacto” do filho. Apenas alguns dias após o enterro, Peter começou a ver a figura de Mephisto por todos os lados. Convencido de que estava delirando, ele tentou novamente escrever para que aquilotudo parasse de acontecer, mas via que a tinta das canetas não aderia às páginas. Com medo de que talvez tivesse exagerado, ele ainda tentou trocar de caneta, mas mesmo as mais porosas se recusavam a diexar suas tintas naquelas páginas.
Um dia Peter viu que não podia mais escrever no LIber Vita. Nem caneta, nem lápis, absolutamente nada mais escrevia nas páginas. Com medo do que aquilo poderia significar, tentou se livrar do livro, mas teve medo que alguém o encontrasse, descobrisse seu segredo e o passasse para trás. Trancou-o num cofre, mas constatou horrorizado que o móvel havia sido arrombado de dentro para fora. O livro nao queria mais ficar por lá com ele.
Seis meses exatos depois que Mephisto apareceu por lá pela primeira vez, o homem entrou de novo pela mesma porta. Peter, apavorado, quis fazer um pacto para que não fosse punido. Porém Mephisto, que possuía um aspecto incrivelmente saudável para alguém que fora morto a pancadas, sorriu e disse:
- Pacto é pacto, senhor Logan. Se duvida, pergunte ao livro. Ele, com certeza, não parece estar contente comsuas atitudes.
Intrigado, Peter abriu o livro. Imediatamente uma luz saiu de seu interior e o envolveu. Seu grito de dor lacinante preencheu o ar enquanto sua forma mortal era desintegrada e reaparecia como uma ilustração nas páginas em branco do livro. Mephisto aproximou-se dele e folheou as páginas até achar Peter, que se tornara uma figura num texto que falava sobre os sete pecados capitais. Ele era, claro, a ganância.
- Hà muito niveis no Livro da Vida, senhor Logan. Da mesma forma que o destino dá, ele tira. Agora o senhor terá uma eternidade para entender seus errosem seu inferno particular.
Mephisto fechou o livro e saiu com ele embaixo do braço. NInguem nunca mais ouviu falar de Peter Logan. A loja, que ficou conhecida por ser mal-assombrada, nunca mais foi ocupada. Dizem que, durante a noite, é possível, nas horas mais caladas, ouvir o gemido de Peter, em algum lugar, se arrependendo de ter abusado do destino.
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