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Trabalhos Literários do Jornalista e Escritor Sérgio Pereira Couto

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Artigo – Códigos e Cifras (Parte 1 de 3)

Publicado por spereirac em Setembro 3, 2008

O artigo a seguir possui informações que serão apresentadas ao público em meu livro sobre Códigos e Cifras, que sairá em breve pela Editora Nova Terra. Saiu originalmente na revista Leituras da História #4. A seguir um trecho do artigo.

Em plena era digital é impossível vivermos sem códigos e cifras. Tudo nas nossas vidas modernas, dos cartões magnéticos que utilizamos no banco até o Internet Bank utiliza métodos avançados para disfarçar informações para que não sejam interceptadas por pessoas com más intenções.

O que poucas pessoas conseguem enxergar é o fato do hábito de cifrar mensagens ser mais antigo do que se supunha. Por exemplo, os códigos e cifras são utilizados desde as civilizações mais antigas, sempre com a intenção de ocultar dados e textos. A necessidade de dificultar o acesso às informações e montar um esquema no qual poucas pessoas possuem o conhecimento necessário para ler a verdadeira mensagem motivou o ser humano a criar as chamadas cifras, que são usadas até hoje nos sistemas informatizados.

É necessário deixar clara a diferença entre um código e uma cifra. O código permite que palavras inteiras sejam substituídas por outras de significado desconhecido. Já as cifras se preocupam com os fonemas, as letras e até com a ausência de sinais, espaços e até pontuação. Um código, por exemplo, pode conter algum tipo de cifra para dificultar sua “decifração”, mas uma cifra dificilmente conterá um código.

Os profissionais que se dedicam ao estudo dos códigos e cifras são chamados de criptógrafos, os que estudam a ciência da criptografia (a transformação do texto original ou limpo em texto cifrado). Os que se dedicam à decifração, ou seja, à quebra dos códigos são chamados de criptoanalistas, que estudam a chamada criptoanálise. Por fim, a criptologia é a ciência que engloba tanto a criptografia quanto a criptoanálise. O prefixo cripto vem do grego kryptós, que significa “escondido”.

 

Decifrando o Passado

Foi porém com a história e a arqueologia em particular que a criptologia encontrou seu campo mais promissor. Ao investigar civilizações do passado e suas línguas há muito tempo mortas que os criptólogos aprenderam as utilidades de tais artifícios. Um exemplo de código muito conhecido do grande público é a decifração dos famosos hieróglifos do Antigo Egito. Era uma linguagem que poucos cidadãos conheciam e que, mesmo assim, carregava um ar místico para os lugares onde era esculpida.

Para explicar o processo vamos lembrar no que consistia a linguagem do Antigo Egito. O termo é uma junção de duas palavras gregas, hieros (sagrado) e glyphós (escrita). Era usada apenas por sacerdotes, membros da realeza, funcionários que ocupavam altos cargos e, claro, os escribas, que deveriam saber a utilização daqueles sinais como parte de suas profissões.

Os hieróglifos são considerados pela maioria dos historiadores como a mais antiga forma de escrita no mundo. Com o tempo evoluiu para outras formas mais simplificadas, como o hierático (uma forma que podia ser pintada sem muitos detalhes nos desenhos em papiros e placas de barro) e mais tarde ainda para o demótico, como o utilizado na Pedra de Rosetta.

Apesar de ser um “código” sagrado foi usado durante 3.500 anos e era esculpido nas paredes dos templos e túmulos. Possuía por volta de 6900 sinais e é considerado pelos egiptólogos uma língua difícil de ser lida, o que pode ter contribuído para seu desaparecimento.

Esse esquecimento da antiga linguagem aconteceu devido a vários fatores, entre eles a invasão que o Egito sofreu de vários povos ao longo de sua história. Mas os fatores decisivos foram mesmo a introdução das línguas grega e romana, que eram mais fáceis de serem aprendidas, bem como a conquista do país por esses impérios. Os egípcios adotaram muitos de seus costumes, como pode inclusive ser observado nas múmias desses períodos, que pouco ou quase nada mantém de semelhante com seus costumes antigos.

Pelo fato de ser uma escrita “sagrada” os hieróglifos também foram vítimas dos preconceitos dos primeiros cristãos, que fizeram de tudo para que esse Código se perdesse a partir do século V Antes de Cristo. Para eles, o que se relacionava com aquela escrita era pagão e, assim, proibido. Os hieróglifos eram vistos como nada mais eram do que uma maneira decorativa dos templos.

Quando no começo do século XVIII a Europa começou a receber vários objetos de arte egípcios, muitos deles vindos de escavações realizadas em Mênfis, a antiga capital dos períodos conhecidos como Antigo e Médio Impérios, a curiosidade pela maneira como aqueles símbolos eram usados cresceu exponencialmente. Os eruditos daquela época logo se sentiram na obrigação de obter de volta a chave para extrair as informações daqueles pequenos objetos. O problema maior era que, com a proibição cristã de mexer com qualquer coisa que fosse pagã, esse conhecimento caiu no total esquecimento.

Por muito tempo acreditou-se que os hieróglifos só eram compreendidos pelos iniciados religiosos e que continha apenas mensagens misteriosas dirigidas a uma classe privilegiada que falavam apenas de doutrinas ocultas e filosofia. Assim, aquele código não poderia mesmo se revelar aos estudiosos e uma corrente contrária à idéia da superstição e do mistério começou a surgir.

O fato de que outras tentativas, todas ocorridas na segunda metade do século XVIII, não terem sido bem sucedidas só tornaram o feito de Champollion ainda mais notável. Como não eram obtidos resultados satisfatórios o estudo dos hieróglifos e suas tentativas de decifração caíram em descrédito e ninguém chegava a consenso. Os símbolos, para uns, eram relativos a fatos astronômicos, quanto outros afirmavam que retratavam trabalhos nos campos e que cada divindade egípcia representava uma das épocas agrícolas. Alguns queriam provar uma relação entre egípcios e chineses e que os hieróglifos originaram a escrita pictográfica chinesa. A explicação mais excêntrica chegou a afirmar que os hieróglifos não eram sinais fonéticos nem nada do gênero, mas apenas sinais decorativos estéticos.

Quando a Pedra de Rosetta foi finalmente encontrada, em agosto de 1799 por um oficial das tropas francesas chamado Bouchard nas proximidades da cidade de Rosetta (em árabe, Rachid), próximo à margem oeste do Nilo, o acontecimento chamou a atenção do mundo inteiro. Era praticamente a primeira vez que se falava na existência de uma peça do Antigo Egito que era bilíngüe.

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