CANTO DO ORÁCULO

Trabalhos Literários do Jornalista e Escritor Sérgio Pereira Couto

Archive for Novembro 24th, 2008

Artigo – Crimes Insolúveis (Parte 1 de 2)

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Capa de LEITURAS DA HISTÓRIA #6

Capa de LEITURAS DA HISTÓRIA #6

 

 

O seguinte artigo foi publicado originalmente na revista Leituras da História número 6, cuja capa está em anexo. fala sobre os grandes crimes sem solução da história, começando, claro, pelo mais clássico deles, os de Jack o Estripador. Por mais que o tempo passe, as pessoas adoram discutir sobre esses crimes. E já inventaram várias identidades para Jack, que iam desde o neto da Rainha Victoria até Lewis Carroll, passando por Walter Sickert, o predileto de Patricia Cornwell. Boa leitura.

Implacáveis e evasivos. Essas são as duas palavras que mais vêm à mente quando estudamos os grandes crimes sem solução da história. A aura de mistério e suspense que cerca esses casos é tanta que mais parecem roteiros de filmes do que casos da vida real, tanto que a maioria deles foi mesmo adaptada para as telonas. O fato de estarmos longe das cenas onde esses crimes aconteceram tornam seus relatos ainda mais parecidos com histórias que se contam em acampamentos ao redor da fogueira.

 

 

Porém não se deixe enganar: as vítimas desses assassinos sem nome realmente existiram e até hoje clamam por vingança em relatos que se tornaram atrações turísticas e que fazem a festa de vários turistas que tiveram a oportunidade de conhecer os cenários desses crimes brutais. Convenções de estudiosos dos casos pipocam pela Europa e Estados Unidos e atraem tantas pessoas quanto as similares de ficção científica.

Mesmo os criminologistas, hoje tão populares entre as pessoas graças à fama de seriados como CSI – Crime Scene Investigation acreditam que a tecnologia moderna é capaz de revelar os segredos desses casos, como atestam os esforços da escritora norte-americana Patricia Cornwell, que gastou uma pequena fortuna pessoal avaliada em mais de quatro milhões de dólares para poder provar sua tese sobre a suposta verdadeira identidade de Jack o Estripador, considerado o primeiro grande serial killer de todos os tempos. O resultado, que se tornou o livro Retrato de um Assassino, é debatido até a exaustão pelos ripperologistas (nome dado aos pesquisadores do caso Jack o Estripador) e desacreditado pela maioria deles.

Mortes sem solução não são uma novidade dos tempos modernos. Com o passar dos tempos muitos casos insolúveis foram registrados (confira três deles nos boxes). Porém apenas com a introdução do termo assassino em série é que levou muitos antropólogos e psicólogos a declararem que este tipo de assassino seria um produto de nossos dias. Outros já preferem apenas analisar os fatos para tentar deles extrair a causa de tais atos hediondos.

Porém o que teria deixado esses casos sem solução? Incompetência da polícia para identificar o assassino? Sorte do criminoso? O nível de elaboração do crime? Para conhecer melhor esses casos vamos analisar quatro dos mais comentados de todos os tempos. O leitor poderá, desta forma, exercitar seus dotes de detetive e arriscar seu palpite. Quem sabe a verdade esteja bem na nossa cara e simplesmente não podemos ver…

 

Jack o Estripador (Whitechappel, Londres, Inglaterra, 1888)

O caso mais famoso de todos possui uma aura de mistério por ter se passado quase simultaneamente ao lançamento do livro O Médico e o Monstro, do escritor escocês Robert Louis Stevenson, e de sua primeira adaptação para o teatro. É considerado o primeiro grande caso de um assassino em série e justamente o fato de sua verdadeira identidade ser um mistério é que suscitou uma grande quantidade de teorias, a maior parte delas tão fantasiosas que geraram uma quantidade de suspeitos enorme a ponto dos pesquisadores do caso escolherem seu favorito. Curiosamente nem mesmo se sabe se o apelido que o tornou notório para as pessoas foi mesmo dado pelo assassino, já que sua origem, como veremos, dá margem à desconfianças;

O Estripador atacou no chamado East End (algo como zona leste) de Londres, num bairro de classe pobre chamado Whitechappel. Tudo começou com a morte de uma prostituta, Maty Ann “Polly” Nichols, encontrada numa ruela localizada a cerca de 180 metros do hospital de Londres. O modo como foi morta, com a garganta rasgada e alguns órgãos retirados, já prenunciava a selvageria que marcaria as mortes atribuídas oficialmente ao misterioso assassino.

Quando a segunda vítima, Anne Chapman, foi identificada, o medo começou a crescer entre as mulheres daquela região. Chapman é descrita como uma prostituta em fim de carreira, com saúde debilitada. Mesmo assim algo atraiu o assassino, que a selecionou para ser sua segunda vítima. As “extrações” foram ainda mais violentas do que as observadas na vítima anterior.

Quando um jornal começou a receber inúmeras cartas, supostamente do assassino, assinadas como Jack o Estripador, o mito do elusivo matador de Whitechappel, que havia ganhado a alcunha de Avental de Couro, ganhou a forma como conhecemos hoje. Essas cartas estão hoje nos Arquivos Nacionais, uma espécie de Arquivos Públicos, e podem ser consultadas pelos interessados.

Todos esperavam com um misto de curiosidade e ansiedade para saber quando a Scotland Yard conseguiria por as mãos no criminoso. Os habitantes do bairro até mesmo organizaram patrulhas particulares para ajudar a polícia.

Enquanto isso o Estripador preparava seu novo golpe. Numa mesma noite atacou Elizabeth Stride bem em frente a um clube de cavalheiros. Porém a aproximação de uma carroça impediu que o “trabalho” fosse completado e a vítima teve apenas a garganta cortada (um modo de impedir que houvesse gritos). Ela foi encontrada com um cacho de uvas na mão e alguns doces. Alertados, os homens do clube chegaram a sair de seu estabelecimento e ajudar nas buscas. Porém mais uma vez Jack parecia ter simplesmente sumido, um fato que se torna mais notável quando sabemos que, na mesma noite, as tais patrulhas particulares estavam em ação também. O fato de Stride não ter nenhum órgão retirado levou muitos ripperologistas a duvidar que ela foi vítima do mesmo assassino.

Apenas 45 minutos depois de descobrirem Stride, na Mitre Square, em plena Londres, o Estripador atacou de novo. Desta vez pegou Catherine Eddowes e fez seu macabro trabalho. O legista deu pela falta de meio rim, que mais tarde apareceria numa carta recebida por George Lusk, presidente do Comitê de Vigilância de Whitechappel. O pedaço de rim foi conservado “nos espíritos do vinho” (uma maneira vitoriana para se referir a álcool etílico) e muitos acreditam que se trata do mesmo rim roubado da vítima.

O quinto e último crime atribuído ao Estripador foi o de Mary Kelly e foi o único que aconteceu dentro de um quarto e não na rua. O assassino entrou no local e teve a privacidade do quarto para realizar seu trabalho: grande parte de seu rosto foi simplesmente removida, bem como um de seus seios e parte da coxa, além dos intestinos e de seu coração. Um verdadeiro espetáculo que revoltaria os estômagos mais fortes, a julgar pela fotografia da época.

Depois deste ataque as mortes atribuídas ao Estripador simplesmente cessaram, o que levou muitos a crerem que ele era mesmo o estranho advogado chamado Montague John Druidd, cujo corpo havia sido resgatado do Tâmisa algum tempo depois da morte de Mary Kelly. Havia uma nota de suicídio, que nunca foi exposta para o público. Druitt, de fato, tinha boas relações com a alta sociedade inglesa e teria freqüentado um colégio de prestígio. Fazia parte de uma sociedade chamada Os Apóstolos, cujos membros vinham das famílias mais tradicionais da época e foram esses mesmos confrades que o acusaram de odiar as mulheres, o que lhe dava um motivo para ser o assassino. A mãe dele havia sido internada com problemas mentais e ele, com medo de que teria o mesmo destino, afogou-se. Para alguns havia uma conspiração em que os Apóstolos poderiam ter usado sua influência para fazer com que Druitt se matasse para que eles não fossem ligados aos assassinatos.

Fora os cinco casos relatados acima Jack o Estripador foi acusado de pelo menos outras 14 mortes, grande parte delas de prostitutas, seus alvos prediletos. Com o passar do tempo surgiram outros suspeitos, entre eles o Príncipe Alberto Victor, duque de Clarence e neto da rainha Vitória; Lewis Carroll, escritor e matemático inglês, autor de Alice no País das Maravilhas; Walter Sickert, artista alemão de descendência holandesa e dinamarquesa, personalidade ligada a diversas teorias de conspiração que envolvem a Família Real britânica e o suspeito predileto de Patricia Cornwell e de outro ripperologista, Jean Overton Fuller; Michael Ostrog, um médico considerado louco que conseguiu se livrar de várias condenações; e sir William Gull, médico da família real, o predileto do roteirista e escritor Alan Moore, que escreveu a história em quadrinhos Do Inferno, mais tarde adaptada para o cinema com Johnny Depp.

Enquanto os anos passam os britânicos parecem tirar proveito da desgraça que se abateu em Whitechappel. O bairro realiza até hoje excursões noturnas onde guias caracterizados com capas longas e cartolas guiam os interessados em passeios ao ar livre até as cenas dos crimes, com o acréscimo de histórias de fantasmas que contam que muitos já viram vultos de um homem de capa e cartola acompanhado de uma prostituta decrépita que se dirigiam para os locais dos assassinatos. O pub The Ten Bells, onde diz-se que era freqüentado por Polly Nichols, Anne Chapman e Mary Kelly, mudou seu nome para Jack The Ripper na década de 1960 e só voltou com seu nome original graças a protestos de grupos feministas. Em 2006 a revista BBC History Magazine elegeu Jack o Estripador como o pior britânico de todos os tempos. No mesmo ano os jornais de todo o mundo divulgaram um retrato falado do Estipador, gerado com tecnologia de ponta e baseado nos relatos da época. No texto da notícia os investigadores britânicos admitiram que “a polícia da época devia estar procurando pelo tipo errado de suspeito” e que o verdadeiro Jack “deveria ser assustadoramente normal, embora capaz de uma crueldade extrema”. A descrição física do assassino mais famoso de todos os tempos dá conta dele ser um homem entre 25 e 35 anos, media entre 1,65 e 1,70 m de altura e ter um tipo físico corpulento.